Friday, May 27, 2005

Alguns aspectos da religião na psicologia analítica

Some aspects of the religion in the analytical psychology

Maurício Aranha "

UNIPAC, Barbacena, Minas Gerais, Brasil; Universidade Redentor, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil; Setor de Psiquiatria, CAPS/FHEMIG, Barbacena, Minas Gerais, Brasil; Núcleo de Psicologia e Comportamento, ICC, Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil

Para Jung, a religião era uma atitude da mente, uma observação cuidadosa em relação a certos poderes espirituais, demoníacos, deificados; seria capaz de atrair a atenção, subjugar, ser objeto de reverência ou de passiva obediência e incondicional amor. Em suas palavras: Poderíamos dizer, então, que o termo religião' designa a atitude peculiar a uma consciência, que foi mudada pela experiência do numinoso (Jung, 1971f: CW 11i, par. 9). Portanto, a uma atitude particular alterada pela experiência de uma espécie de fluxo emocional que migraria para o plano consciente sempre que submetido a um estímulo arquetípico, por exemplo, uma imagem ou uma situação relacionadas com dado arquétipo (Jung, 2001). Assim sendo, pode-se compreender que o conceito de religião não é defendido por Jung no sentido dogmático ou teológico, mas como experiência religiosa do divino ou transpessoal. A idéia não é se referir a um determinado credo ou a uma confissão, mas à atitude peculiar produzida por uma consciência. Afirma:
Gostaria de deixar claro que, com a expressão religião, não me refiro a um credo. Nestes termos, é certo dizer, por um lado, que toda confissão se fundamenta originalmente na experiência do numi-nosum , mas, por outro lado, também na pistis , na fidelidade (lealdade), na fé e na confiança em determinada experiência de efeito numinoso e nas conseqüentes mudanças na consciência; (...). (Jung, 1971f: CW 11i, par. 9).
Nas conferências realizadas por Jung e registradas na obra Psicologia e Religião , o mesmo tenta correlacionar a abordagem psicológica à religiosa. Insiste que a religião deve ser considerada pelos profissionais que trabalham com a saúde mental, uma vez que esta representaria o que há de mais antigo e universal na mente humana. Seu convite tem um forte apelo científico, reforçando que tais pesquisas deveriam ser realizadas à luz de uma análise fenomenológica.
Na concepção Junguiana, a alma humana careceria de noções imagéticas de cunho mítico-religioso. Cumpre ressaltar o que este autor quer definir através do uso da expressão alma humana, primeiramente, Jung percebe como tal um elemento vital inerente ao ser humano, cuja vitalidade, como um moto-contínuo, seria também geradora e re-alimentadora de si mesma (1976a: CW 9i, par. 56), complementa esta enunciação entendendo que esta alma não se interessaria pelas categorias da realidade imediata, pelo contrário, seu paradigma de realidade (Real) estaria vinculado a aquilo que tem efeito (1971i: CW 16i, par. 111). Importante não perder de vista, que nesta postulação de Jung alma e consciência não se confundem, por sinal, este autor destaca a necessidade de perceber tal diferença para que então seja possível identifica-la conceitualmente (1971i: CW 16i, par. 111). Portanto, para Jung, a alma representa uma atitude interna e uma possibilidade de relacionamento com o inconsciente, a isto acrescenta que a personalidade interna é o modo como uma pessoa se comporta em relação aos processos psíquicos interiores, é a atitude interna, o caráter que tal pessoa opõe ao inconsciente. (1971b: CW 6, par. 883). A isto, Jung denomina de a atitude interna de alma (1971i: CW 16i, par. 111).
Retomando a questão das imagens mítico-religiosas, das quais a alma humana careceria, Jung as expõem como manifestações psíquicas que representariam a essência da alma:
A construção primitiva do espírito não inventa os mitos, ela os vivencia. Os mitos são, originalmente, revelações da psiquê pré-consciente, proposições involuntárias a respeito do acontecimento psíquico, nada mais que alegorias dos processos psíquicos. (...) Os mitos, (...), têm um significado vital. Eles não apenas representam, mas são a vida psíquica da linhagem primitiva e, uma vez perdida a herança mítica herdada dos antepassados, essa linhagem desmancha-se e sucumbe, assim como um homem que perdeu a alma. A mitologia de uma linhagem é sua religião viva. Sua perda representa sempre, mesmo no caso do homem civilizado, uma catástrofe moral. (...) Muitos desses processos inconscientes podem até ser provocados indiretamente pela consciência, mas nunca por uma arbitrariedade consciente. (Jung, 1976a: CW 9i, par. 261)
Quando Jung utiliza o termo primitiva (construção primitiva do espírito), ele está se referindo à descrição da psiquê humana original e indiferenciada. Neste sentido diz:
Emprego o termo primitivo' no sentido primordial', e ... [isso] não implica nenhum tipo de juízo de valor. Também quando falo em vestígio' de um estado primitivo, não quero dizer necessariamente que esse estado, mais cedo ou mais tarde, chegará a um fim. Pelo contrário, não vejo impedimento algum para que perdure tanto quanto durar a humanidade. (1971d: CW 8ii, par. 218).
Tais imagens não seriam conscientemente desenvolvidas; mas surgiriam espontaneamente, assim como os sonhos, e isto se daria a partir da força irracional do instinto. Esta força teria sua origem no fato de que, deixando-se levar pelas experiências da vida psíquica, o ser humano permite a incitação das fantasias, o que acarretaria a formação de sonhos e imagens mítico-religiosas. Jung (1976a: CW 9i, par. 7) descreve, ainda, tal experiência como uma expressão simbólica para o drama interior e inconsciente da psique.
Mas não nos demos conta ainda de que os mitos são, antes de tudo, uma manifestação psíquica que representa a essência da lama. (...) um homem primitivo; (...) possui uma necessidade imperiosa ou, melhor dizendo, sua psique inconsciente é dotada de um ímpeto insuperável de assimilar todas as experiências exteriores dos sentidos sob a forma de acontecimentos psíquicos. Não basta ao homem primitivo ver o sol se pôr. O que ele observa tem que ser, ao mesmo tempo, um acontecimento psíquico, ou seja, o sol, em seu modo de se transformar, tem de representar o destino de um deus ou de um herói (2) , que na verdade, habita nada mais nada menos do que a alma humana. (...) os acontecimentos naturais mitificados não são nada mais que alegorias dessas experiências objetivas, do que expressões simbólicas para o drama interior e inconsciente da psique, drama que, no caminho da projeção, isto é, espelhado em acontecimentos naturais, torna apreensível a consciência humana.
Deste modo, a religião teria por finalidade estudar as forças dinâmicas externas que exercem ação sobre o sujeito. Nas conferências realizadas por Jung e registradas na obra intitulada Psicologia e Religião , o mesmo procura estabelecer uma abordagem que proporcione a convergência da abordagem psicológica com a temática religiosa; chegando até a enfatizar que os profissionais que trabalham e investigam este campo do conhecimento humano, a psicologia, devem deter suas investigações minuciosamente sobre o tema religião já que ela representa uma das expressões mais antigas e universais da mente humana.Jung sempre procurou manter suas pesquisas dentro de uma abordagem estritamente científica, não sendo diferente quanto ao caráter religioso daquelas, uma vez que ao convocar os profissionais da área de saúde mental para refletirem sobre questões de cunho religioso, deixava claro que as pesquisas aí desenvolvidas deveriam se ater ao campo fenomenológico, uma vez que a finalidade deste estudo se volta para compreender de que modo as forças dinâmicas exercidas pela crença são capazes de controlar o sujeito.
A compreensão de tal controle é relevante, pois, como mostra Jung ao narrar o caso de um homem que acreditava ser portador de enfermidade carcinogênica, relata que, na verdade, o mesmo vivia um drama interior relativo à rejeição que impunha ao seu consciente de enfrentar aspectos inconscientes ou sombrios da sua própria natureza.
Há algo de medonho no fato de o homem também possuir um lado sombrio, que não consiste apenas em pequenas fraquezas e defeitos, mas em uma dinâmica diretamente demoníaca. (...) Mas se deixarmos esses seres inofensivos formarem uma massa, poderá surgir dela, eventualmente, um monstro delirante, (...). Temos um leve pressentimento de não estar completos sem esse lado negativo, de que temos um corpo que, projeta forçosamente uma sombra, e de que renegamos esse corpo (Jung, 1971c: CW 7i, par. 35).
Aquele processo de rejeição se dava porque a sombra, na psicologia junguiana, se revela alterativa, ou seja, como um estado ou qualidade do que é outro, do que é distinto, pelo fato de conter qualidades da personalidade que estão ocultas ou que não foram percebidas. Estes traços obscuros da personalidade ou do caráter não apenas se referem a pequenas fraquezas e defeitos, mas envolvem um universo maior da personalidade no tocante aos seus aspectos pulsionais inferiores. Por este motivo é que o homem vem ao longo de sua trajetória histórica elaborando rituais com o fim de se proteger das sombras que insistem em emergir do seu inconsciente. Este aspecto também está contido na questão religiosa, uma vez que os dogmas e rituais das religiões contemplam este aspecto legal e determinista. Na obra citada, quando Jung aborda sonhos com conteúdo religioso, tem por fim demonstrar a existência desta experiência a um nível interiorizado do sujeito, notadamente no tocante aos complexos animus e anima . Ao abordar a questão do animus , Jung entende que:
A mulher é compensada por meio de uma essência masculina; por isso, seu inconsciente tem uma espécie de marca masculina. (...) Esse termo significa razão ou intelecto. Assim como a anima corresponde ao Eros materno, o animus corresponde ao Logos paterno. (...) Faço uso dos termos Eros e Logos apenas como instrumentos de apoio para descrever o fato de que a consciência da mulher é caracterizada mais pelo caráter de integração do Eros do que pelo caráter de discernimento e de cognição do Logos . Nos homens, o Eros , a função de relação, encontra-se, via de regra, menos desenvolvida do que o Logos . Na mulher, por outro lado, o Eros é a expressão de sua natureza verdadeira. (1976b: CW 9ii, par. 29).
Já a anima , o lado feminino interior do homem, é tanto um complexo pessoal, como uma imagem arquetípica, uma imagem primordial, isto é, a uma forma ou representação de um arquétipo da consciência. Jung chega a afirmar que a anima é o arquétipo da própria vida (1976, CW 9i, par. 66) . Dentro da psiquê, a anima funciona como alma, influenciando as idéias, atitudes e emoções de um homem. De onde se conclui que o animus é a figura anímica masculina na mulher, um equivalente da anima ; é o princípio do Logos , ou seja, do juízo e julgamento.
Sobre o numinoso e o sagrado, pode-se afirmar, no contexto junguiano, que representam o divino incompreensível e, ao mesmo tempo, revitalizados como força que desperta sob a forma de confiança e pavor. Para Jung, estas manifestações guardam em si aspectos duais, pois:
(...), se comprovo que a alma possui naturalmente uma função religiosa, e se levo adiante a idéia de que a tarefa mais distinta de toda a educação (do adulto) é tornar consciente o arquétipo da imagem divina e seus respectivos efeitos e difusões, a teologia vem sobre mim e tenta me dirimir do psicologismo. Se na psique não existissem grandes valores referentes à experiência (sem prejuízo do já existente antinomon pneuma ), a psicologia não me interessaria nem um pouco, já que a psique seria, então, nada mais que um deserto miserável. Mas com base em centenas de experiências sei que ela não é assim. Ao contrário, ela contém o correlato de todas aquelas experiências que formularam o dogma, e ainda mais alguma coisa que a torna capaz de ser o olho definido para ver a luz. (...) Acusaram-me de deificação da psique. Foi Deus, e não eu, quem a deificou! Não fui eu quem criou para a alma uma função religiosa. (...), somente expus os fatos que comprovam que a alma é naturaliter religiosa , (...). (Jung, 1971h: CW 12, par. 14).
Para Jung, os fenômenos e símbolos religiosos ganham expressão também em mitos da antigüidade como nos cultos a Atena, Cibele e Mitra, pois os sonhos e experiências religiosas vivenciadas demonstram a função religiosa da psique. Aqueles símbolos representariam a expressão de algo desconhecido, seriam transformadores de energia do acontecimento psíquico e da experiência anímica do homem. Aliás, segundo esta perspectiva Jung desvincula e diferencia o conceito de símbolo do conceito de signo (1971b: CW 6, par. 894), pois este designaria qualquer objeto, forma ou fenômeno que remete para algo diferente de si mesmo e que é usado no lugar deste numa série de situações (Houaiss, 2001). Assim sendo, os signos diriam respeito ao elemento indicativo de fatos conhecidos ou cognoscíveis, os quais podem ser interpretados semioticamente através de imagens ao tratar com materiais inconscientes (sonhos e fantasias). Ele conclui ainda, em sua representação de símbolo que este possui uma natureza altamente complexa, tendo em vista que é composto a partir da aglutinação de múltiplas informações psíquicas. Por esta natureza e formação, o símbolo seria imbuído, por exemplo, tanto de aspectos que por um lado sedem à razão, quanto por outros elementos de natureza inacessível, visto não pertencerem à natureza do racional. Estes aspectos inacessíveis diriam respeito à uma instância de pura percepção interior e exterior (1971b: CW 6, par. 906).Nas culturas tribais, por exemplo, o mito e a religião constituem uma unidade; por sua vez, o mito da personificação de Deus em Jesus é uma apreensão de um mito já existente. Jung ressalta sobre o mito:
Todavia, o mito é constituído por símbolos que não foram inventados; eles simplesmente aconteceram. Não foi o ser humano chamado Jesus que criou o mito do deus personificado. Este já existia há séculos. Ao contrário, ele próprio foi apreendido por essa idéia simbólica, que, descreve Marcos, o tirou da oficina do carpinteiro e da limitação espiritual do seu meio. Os mitos remontam aos primitivos contadores de histórias e a seus sonhos, a pessoas que eram movidas pela emoção de suas fantasias, enfim, a pessoas que pouco se distinguiram do que se costumou chamar mais tarde de poetas e filósofos. Os contadores de histórias primitivos nunca se questionaram quanto à origem de suas fantasias. Apenas muito mais tarde começou-se a pensar a esse respeito. Já na Grécia antiga o espírito humano encontra-se suficientemente desenvolvido para supor que as histórias contadas a respeito dos deuses não eram nada mais que tradições antigas e exageradas sobre os reis do passado e seus feitos. Já naquela época eles supunham que o mito não deveria ser tomado ao pé da letra, devido aos claros disparates que continham. Por essa razão, tentaram reduzi-lo a uma fábula que fosse de compreensão geral. (Jung, 1971j: CW 18i, par. 658)
No entanto, críticos, mormente clérigos, questionam sobre o porquê Jung nunca revelou ou manifestou-se sobre a origem do numinoso. Para Jung, esta numinosidade encontrava expressão ou correspondência na imagem de Deus de indivíduos com propensão arquetípica de expressar tal conteúdo de forma reconhecível. Sendo assim, a função religiosa passava a estar intimamente ligada ao conceito de arquétipo, ou seja, aos elementos primordiais da psiquê humana que se apresentam como idéias e imagens (Jung, 1971d: CW 8ii, par. 435). Jung destaca ainda que os arquétipos são, por definição fatores e motivos que ordenam os elementos psíquicos em determinadas imagens, caracterizadas como arquetípicas, mas de tal modo que pode ser reconhecida somente pelos efeitos que produzem. (1971g: CW 11ii, par. 222) (2) . Este conceito se entrelaçaria aos conceitos de Imagem Arquetípica (forma r ou representação de um arquétipo na consciência) (Jung, 1971d: CW 8ii, par. 417) e também de Instinto , de modo que seu significado envolve elementos primordiais e estruturais da psique, tornando-os sistemas de prontidão para a ação e, ao mesmo tempo, imagens e emoções (1971e: CW 10, par. 53). Contra aqueles críticos resistentes à sua perspectiva, Jung pondera no sentido de que:
Deus é um mistério, e tudo que dizemos sobre esse mistério é dito e acreditado pelos seres humanos. Fazemos imagens e conceitos, porém quando falo de Deus sempre quero dizer a imagem que o homem fez dele. Mas ninguém sabe com o que se parece, pois quem o fizesse seria, ele próprio, um deus (Jung, 2001).
Ao longo da obra Psicologia e Religião , Jung ressalta que a análise dos sonhos é uma porta para a compreensão do inconsciente, chegando a mencionar os sonhos de conteúdo mítico-religioso de um paciente cientista. Para Jung, a instância que abriga a imagem divina na psique humana é o self . Este seria um princípio ordenador da personalidade capaz de conter todas as possibilidades do vir a ser heraclitiano; em outras palavras, dando significado ao símbolo. Esta abordagem, se tomada como sendo de natureza objetiva, possui elementos experienciais comuns como arquétipos e signos; e, por natureza subjetiva, elementos experienciais singulares que se fazem representar por meio das imagens arquetípicas e símbolos; o que possibilita aos elementos comuns (sígnicos) se desdobrarem em elementos singulares (símbolos) tanto quanto a experiência sócio-cultural-existêncial daquele que sonha permitir.
Assim sendo, pode-se inferir que tudo o que já foi manifesto nas escrituras bíblicas e nos dogmas cristãos possui correlato na função religiosa da psique, ou seja, são expressões do arquétipo religioso contido em cada pessoa. Aprofundando nesta linha de raciocínio, Jung menciona o fato de que questões religiosas, bem como das imagens divinas quando não compreendidas pela consciência, podem desencadear distúrbios psiconeuróticos. Jung valoriza tanto o papel da religiosidade que chega a propor que os sistemas religiosos deveriam se ocupar de questões da psique, sendo então sistemas psicoterapêuticos. No entanto, o que se torna evidente é que a religião atua contrariamente a este posicionamento, tendo em vista que sua direção se volta para o objetivo de proteger as pessoas das possíveis experiências religiosas direta, pois sua abordagem se faz em nível de confissão.
O que chamamos comumente e em termos genéricos de religião é de modo tão surpreendente um substituto, que me pergunto seriamente se essa espécie de religião, que preferiria chamar de confissão, não teria uma função importante na sociedade humana. Ela tem o objetivo óbvio de substituir a experiência direta por uma diversidade de símbolos adequados, sob a forma de um dogma ou de um ritual bem organizado. (...) Enquanto esses dois princípios [autoridade absoluta, no catolicismo; e, crença no evangelho, no protestantismo] mantiverem-se ativos, as pessoas estarão bem protegidas contra a experiência religiosa direta . (Jung, 1971f: CW 11i, par. 75).
Jung salienta que o protestantismo tendo se despojado de muitos rituais preservados pelo catolicismo, deixou o indivíduo se confrontar com seus aspectos sombrios, o que em muito beneficiou as modernas sociedades, pois as tornou mais analíticas.
Quando acima foi mencionado o self como estrutura totalizadora deste processo, quis-se evidenciar que para tanto é necessário o engajamento do ego que irá responder às solicitações do processo de individuação, o qual Jung conceitua como sendo o processo pelo qual os seres individuais se formam e se diferenciam; em particular, é o desenvolvimento de um indivíduo psicológico como um ser distinto da psicologia geral e coletiva. (Jung, 1971b: CW 6, par. 825). Esta individuação, ou seja, este ato auto-realizador se torna um ato de significação religiosa, uma vez que confere significado ao esforço individual. De outro modo, poder-se-ia dizer que o ato de viver se dá por meio de uma dinâmica dialética onde conflitos e resoluções interagem constantemente dando significado a existência humana. No âmbito das interações entre indivíduo e psique coletiva, entende Jung que a existência de uma atitude religiosa viva e válida é o único meio capaz de promover esta conciliação.
Ainda sobre o conteúdo da obra Psicologia e Religião , é possível notar a preocupação de Jung com os sonhos, uma vez que procura abordar criteriosamente aspectos tais como material arquetípico, idéias primordiais, tendências do pensamento, discute a significação do número quatro tanto na história do mito quanto no pensamento religioso, passando ainda pela revelação alquímica. Também enfoca a representação de Deus e da Trindade de forma comparativa. Chegando a salientar a importância e a falta, na doutrina cristã, do quarto elemento. Isto revela a importância, a abrangência e o impacto psíquico que a religiosidade possui sobre a alma humana; demonstrando a premente necessidade de se dar continuidade as pesquisas nesta área do conhecimento, principalmente se esta for compreendida como um sistema capaz de conferir a psique o equilíbrio que esta tanto almeja. Por fim, quando Jung (2001) emite sua opinião sobre a religiosidade, afirma: Não acredito pois realmente sei de um poder de natureza muito pessoal e uma influência irresistível. Eu a chamo de Deus'.


Notas sobre o autor
" Maurício Aranha é Médico (UFJF), Especialista em Neurociência e Saúde Mental (Barcelona), Neurolingüística (IBMR), Psicologia Analítica , Psicopedagogia Institucional e Clínica, Terapia Holística e Metodologia dos Processos de Aprendizagem. Atua como Preceptor de Residência Médica em Psiquiatria (CAPS/FHEMIG), Coordenador do Núcleo de Psicologia e Comportamento do Instituto de Ciências Cognitivas (ICC) e Professor da Universidade Presidente Antônio Carlos (UNIPAC) e da Universidade Redentor . Endereço para contato: Rua Batista de Oliveira, 1110/301-B, Grambery, Juiz de Fora, MG 36.010-532, Brasil. Telefone: +55 (32) 3232-8066. E-mail: mauricioaranha@uol.com.br .
Notas
(1) Projeção: (...) significa a expulsão de um conteúdo subjetivo para um objeto; é o oposto da introjeção. Conseqüentemente, é um processo de desassimilação, pelo qual um conteúdo subjetivo se aliena do sujeito e, por assim dizer, encarna-se no objeto. O sujeito se desvencilha dos conteúdos dolorosos e incompatíveis, projetando-os. (Jung, 1971b: CW 6, par. 783)
(2) O arquétipo do Herói representa, na visão junguiana o motivo arquetípico baseado na superação de obstáculos e no alcance de determinadas metas. Jung (1971a: CW 5, par. 516) assim o define: O herói simboliza o self inconsciente de um homem; este se manifesta empiricamente, como a soma total de todos os arquétipos, incluindo, portanto, o arquétipo do pai e do velho sábio. Neste sentido, o herói é seu próprio pai e seu próprio procriador

Thursday, April 21, 2005

O Encontro do Ego e do Si Mesmo

Características
  1. Um encontro representado por Deus, um anjo ou um ser superior qualquer.

  2. Uma ferida, ou sofrimento do Ego, decorrência desse encontro.

  3. Apesar da dor, o ego persevera e resiste à provação examinando a experiência em busca do seu significado.

  4. Como consequência dessa perseverança, há uma relação divina, através da qual o ego é recompensado com um insight sobre sua psique transpessoal.


Esaú e Jacó - Exemplo
Esaú era sombra de Jacó (vice-versa)
  • O Encontro: Gênesis 32:24 ficando ele só; e lutava com ele um homem, até ao romper do dia.

  • A Ferida e a dor :Gênesis 32:25 Vendo este que não podia com ele, tocou-lhe na articulação da coxa; deslocou-se a junta da coxa de Jacó, na luta com o homem.

  • Insight: Gênesis 32:28 Então, disse: Já não te chamarás Jacó, e sim Israel, pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste.


Versão: João Ferreira de Almeira Revista e Atualizada Gênesis
32:1 Também Jacóseguiu o seu caminho, e anjos de Deus lhe saíram a encontrá-lo.
Gênesis 32:2 Quando os viu, disse: Este é o acampamento de Deus. E chamou àquele lugar Maanaim.
Gênesis 32:3 Então, Jacó enviou mensageiros adiante de si a Esaú, seu irmão, àterra de Seir, território de Edom,
Gênesis 32:4 e lhes ordenou: Assim falareis a meu senhor Esaú: Teu servo Jacómanda dizer isto: Como peregrino morei com Labão, em cuja companhia fiquei até agora. (o encontro com a sombra é aos poucos - há mecanismos para tornar sua sombra amiga - os mensageiros)
Gênesis 32:5 Tenho bois, jumentos, rebanhos, servos e servas; mando comunicá-lo a meu senhor, para lograr mercê à sua presença.
Gênesis 32:6 Voltaram os mensageiros a Jacó, dizendo: Fomos a teu irmão Esaú; também ele vem de caminho para se encontrar contigo, e quatrocentos homens com ele.
Gênesis 32:7 Então, Jacó teve medo e se perturbou; dividiu em dois bandos o povo que com ele estava, e os rebanhos, e os bois, e os camelos.
Gênesis 32:8 Pois disse: Se vier Esaúa um bando e o ferir, o outro bando escapará.
Gênesis 32:9 E orou Jacó: Deus de meu pai Abraão e Deus de meu pai Isaque, ó SENHOR, que me disseste: Torna à tua terra e à tua parentela, e te farei bem;
Gênesis 32:10 sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade que tens usado para com teu servo; pois com apenas o meu cajado atravessei este Jordão; jáagora sou dois bandos.
Gênesis 32:11 Livra-me das mãos de meu irmão Esaú, porque eu o temo, para que não venha ele matar-me e as mães com os filhos.
Gênesis 32:12 E disseste: Certamente eu te farei bem e dar-te-ei a descendência como a areia do mar, que, pela multidão, não se pode contar.
Gênesis 32:13 E, tendo passado ali aquela noite, separou do que tinha um presente para seu irmão Esaú:
Gênesis 32:14 duzentas cabras e vinte bodes; duzentas ovelhas e vinte carneiros;
Gênesis 32:15 trinta camelas de leite com suas crias, quarenta vacas e dez touros; vinte jumentas e dez jumentinhos.
Gênesis 32:16 Entregou-os às mãos dos seus servos, cada rebanho à parte, e disse aos servos: Passai adiante de mim e deixai espaço entre rebanho e rebanho.
Gênesis 32:17 Ordenou ao primeiro, dizendo: Quando Esaú (sombra de Jacó), meu irmão, te encontrar e te perguntar: De quem és, para onde vais, de quem são estes diante de ti?
Gênesis 32:18 Responderás: São de teu servo Jacó; épresente que ele envia a meu senhor Esaú; e eis que ele mesmo vem vindo atrás de nós.
Gênesis 32:19 Ordenou também ao segundo, ao terceiro e a todos os que vinham conduzindo os rebanhos: Falareis desta maneira a Esaú, quando vos encontrardes com ele.
Gênesis 32:20 Direis assim: Eis que o teu servo Jacóvem vindo atrás de nós. Porque dizia consigo mesmo: Eu o aplacarei com o presente que me antecede, depois o verei; porventura me aceitará a presença.
Gênesis 32:21 Assim, passou o presente para diante dele; ele, porém, ficou aquela noite no acampamento.
Gênesis 32:22 Levantou-se naquela mesma noite, tomou suas duas mulheres, suas duas servas e seus onze filhos e transpôs o vau de Jaboque (todos os seus arquétipos).
Gênesis 32:23 Tomou-os e fê-los passar o ribeiro; fez passar tudo o que lhe pertencia,
Gênesis 32:24 ficando ele só; e lutava com ele um homem, até ao romper do dia. (o encontro é sozinho e à noite - inconsciente; o homem é o SELF)
Gênesis 32:25 Vendo este que não podia com ele, tocou-lhe na articulação da coxa; deslocou-se a junta da coxa de Jacó, na luta com o homem. (a ferida e a dor)
Gênesis 32:26 Disse este: Deixa-me ir, pois já rompeu o dia (o consciente surge). Respondeu Jacó: Não te deixarei ir se me não abençoares.
Gênesis 32:27 Perguntou-lhe, pois: Como te chamas? Ele respondeu: Jacó.
Gênesis 32:28 Então, disse: Já não te chamarás Jacó, e sim Israel, (Insigth - novo homem, transformado) pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste.
Gênesis 32:29 Tornou Jacó: Dize, rogo-te, como te chamas? Respondeu ele: Por que perguntas pelo meu nome? E o abençoou ali.
Gênesis 32:30 Àquele lugar chamou Jacó Peniel, pois disse: Vi a Deus face a face, e a minha vida foi salva.

Sincronicidade

Carl Jung (1875-1961), Sincronicidade e o Inconsciente Coletivo
Além de acreditar numa série de noções do oculto e paranormal, Jung contribuiu com duas novas noções na tentativa de estabelecer uma psicologia baseada em crenças pseudocientíficas. Jung acreditava na astrologia, espiritismo, telepatia, telecinética, clarividência e PES.
A sua noção de sincronicidade é que existe um princípio de causalidade que liga acontecimentos que têm um significado similar pela sua coincidência no tempo em vez da sua seqüencialidade.Afirmou haver uma sincronicidade entre a mente e o mundo fenomenológico da percepção. Sincronicidade é um princípio explicatório; explica "coincidências significativas" como uma borboleta entrar a voar num quarto quando o paciente descrevia um sonho com escaravelhos. O escaravelho é um símbolodo antigo Egipto que simboliza o renascer. Portanto, o momento do inseto voador indica que o significado transcendental de quer o escaravelho no sonho, quer a borboleta no quarto, era que o paciente necessitava ser libertado do seu excessivo racionalismo! Na verdade, o paciente precisava ser libertado do seu terapeuta irracional!
Que evidencias existem para a sincronicidade? Nenhumas. A defesa de Jung é tão fraca que hesito em repeti-la. Afirma, por exemplo, "...fenômenos causaisdevem existir... visto as estatísticas só serem possíveis se também existirem exceções" (1973, Letters, 2:426). E "... fatos improváveis existem- senão não existiria média estatística..." (ibid.: 2:374). E, o melhor de tudo, "a premissa da probabilidade postula simultaneamente a existência do improvável" (ibid. : 2:540). Mesmo se existe uma sincronicidade entre a mente e o mundo de tal modo que certas coincidências ressoam com verdades fundamentais, existe ainda o problema de perceber quais são essas verdades. Que guia podemos usar para determinar a correção de uma interpretação? Não existe nenhuma exceto a intuição. O mesmo guia levou Freud à sua interpretação dos sonhos. Do meu ponto de vista, a única coisa que claramente revelam essas interpretações são os colossais egos dos homens que as fazem.
De acordo com Anthony Storr, Jung era um homem doente que se via a si mesmo como um profeta. Jung referiu-se à sua "doença criativa" (entre 1913-1917) como uma confrontação voluntária com o inconsciente. A sua visão era que todos os seus pacientes com mais de 35 anos sofriam de "perda de religião" e ele tinha com que encher as suas vidas vazias: o seu próprio sistema metafísico de arquétipos e a inconsciência coletiva. Em resumo, ele pensou poder substituir a religião com o seu próprio ego e assim trazendo sentido a todos cujas vidas eram vazias e sem significado. Mas a sua "visão" são ilusões e ficções. São inúteis para pessoas saudáveis. É uma metafísica para o ártico.
A sincronicidade fornece acesso aos arquétipos, que se localizam no inconsciente coletivo e caracterizam-se por serem predisposições mentais universais não baseadas na experiência. Como as Formas de Platão (eidos), os arquétipos não se originam no mundo dos sentidos, mas existem independentemente desse mundo e são conhecidos diretamente pela mente. Ao contrário da teoria de Platão, contudo, Jung acreditava que os arquétipos surgiam espontaneamente na mente, especialmente em tempos de crise. Tal como há uma coincidência significativa entre a borboleta e o escaravelho que abre as portas para a verdade transcendental, também uma crise abre as portas do inconsciente coletivo e permite que os arquétipos revelem uma verdade profunda escondida da consciência ordinária. A mitologia, afirma, baseia as suas histórias nos arquétipos. A mitologia é um reservatório das profundas, escondidas verdades. Sonhos e crises psicológicas, febres e perturbações, encontros ao acaso ressoando com "coincidências significativas", tudo são caminhos para o inconsciente coletivo que está pronto a restaurar na psique individual a saúde. Isto é a teoria.


Astrologia
A astrologia, em sua forma tradicional, é um método de adivinhação baseado na teoria de que as posições e movimentos dos corpos celestes (estrelas, planetas, sol e lua), no momento do nascimento, influenciam profundamente a vida da pessoa. Na sua forma psicológica, a astrologia é um tipo de terapia da Nova Era, usada para a autocompreensão e a análise da personalidade. (Este verbete se refere à astrologia tradicional. Consulte astroterapiapara uma discussão da astrologia psicológica.) A forma mais tradicional é a Astrologia de Signos Solares, tipo encontrado em numerosos jornais diários que publicam horóscopos. O horóscopo é um prognóstico astrológico. O termo também é usado para descrever um mapa do zodíaco no momento do nascimento da pessoa. O zodíaco se divide em doze zonas celestes, cada qual recebendo o nome de uma constelação que originalmente coincidia com a zona (Touro, Leão, etc.). Todas as trajetórias aparentes do sol, da lua e dos principais planetas se encaixam dentro do zodíaco. Devido ao movimento da precessão, os pontos de equinócio e solstício se moveram para o oeste cerca de 30 graus nos últimos 2.000 anos. Assim, as constelações zodiacais que receberam seus nomes na antiguidade não correspondem mais aos segmentos do zodíaco representados por seus signos. Em resumo, se você tivesse nascido na mesma hora do mesmo dia do ano há 2.000 anos, teria nascido sob um signo diferente. A astrologia ocidental tradicional pode ser dividida em tropical e sideral. (Astrólogos de tradições não-ocidentais utilizam sistemas diferentes.) O ano tropical, ou solar, é medido em relação ao sol e corresponde ao tempo (365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos) entre equinócios vernais sucessivos. O ano sideral éo tempo (365 dias, 6 horas, 9 minutos e 9,5 segundos) necessário para que a Terra complete uma órbita ao redor do sol relativa às estrelas. O ano sideral é mais longo que o tropical devido à precessão dos equinócios, ou seja, o lento deslocamento para o oeste dos pontos equinociais ao longo do plano da eclíptica, a uma taxa de 50,27 segundos de arco por ano, resultante da precessão do eixo de rotação da Terra. A astrologia sideral utiliza como base a constelação real na qual o sol se localiza no momento do nascimento. A tropical usa um setor de 30 graus do zodíaco como base. Esta é a forma mais popular e baseia suas leituras na época do ano, geralmente ignorando as posições relativas do sol e das constelações entre si. A astrologia sideral é usada por uma minoria de astrólogos e baseia suas leituras nas constelações próximas do sol nomomento do nascimento.
Uma das defesas comuns a favor da astrologia é o argumento falacioso da popularidade e tradição: bilhões de pessoas no mundo acreditam na astrologia e ela tem sobrevivido por milhares de anos. Essas afirmações são verdadeiras, mas irrelevantes como prova da "veracidade" da astrologia. Os antigos caldeus e assírios se envolveram com a adivinhação astrológica há cerca 3.000 anos. Em torno de 450 AEC, os babilônios tinham desenvolvido o zodíaco de 12 signos, mas foram os gregos, do tempo de Alexandre, o grande, até a conquista pelos romanos, que forneceram a maioria dos elementos fundamentais da astrologia moderna. A disseminação das práticas astrológicas foi contida pela ascensão do cristianismo, que enfatizava a intervenção divina e o livre arbítrio. Na renascença, a astrologia recuperou popularidade, em parte devido ao ressurgimento do interesse pela ciência e pela astronomia. Teólogos cristãos, no entanto, combateram a astrologia e, em 1585, o Papa Sisto V a condenou. Na mesma época, os trabalhos de Kepler e outros enfraqueceram os princípios astrológicos.

A astrologia é testável?
Um segundo argumento a favor da astrologia é o de que ela é testável e que há indícios de que os dados apóiem a hipótese de uma conexão causal entre oscorpos celestes e os eventos humanos. Por exemplo, de acordo com o assim chamado Efeito Marte, grandes atletas são natos, não feitos. Essa afirmação é baseada numa análise estatística das datas de nascimento de grandes atletas e a posição de Marte quando nascem. Diz-se que a correlação é maior do que o que se esperaria pelo acaso. Outros discordam e alegam que os indícios não mostram uma correlação que não seria esperada pelo acaso. No entanto, mesmo se houvesse uma correlação significativa entre a posição de Marte na data do nascimento e o fato da pessoa se tornar um atleta excepcional, isso não implicaria ou mesmo indicaria existir uma conexão causal entre a posição de um planeta e o tipo de atividade em que a pessoa se daria bem na Terra. A correlação entre x e y não é uma condição suficiente para a crença racional de que x causa y. Mesmo uma correlação estatisticamente significativa entre x e y não é uma condição suficiente para uma crença racional numa correlação causal, muito menos para a crença de que x causa y. Correlação não prova causalidade.
Embora não prove, a correlação é extremamente atraente para os defensores da astrologia. Por exemplo: "Entre 3.458 soldados, Júpiter éencontrado 703 vezes, nascendo ou culminando quando eles nascem. As leis das probabilidades prevêem que deveriam ser 572. As chances disso acontecer: uma em um milhão" (Gauquelin). Estou disposto a assumir que todos os dados estatísticos que mostram uma correlação significativa entre diversos planetas nascendo, se pondo, culminando, ou o que quer que se possa vê-los fazer, é acurada. No entanto, seria mais surpreendente se entre todos os bilhões e bilhões de movimentos celestes concebíveis não houvesse uma grande parte que pudesse ser significativamente correlacionada com dezenas de eventos em massa ou traços de personalidade individuais. Por exemplo, os defensores da astrologia gostam de observar que 'a duração do ciclo menstrual da mulher corresponde às fases da lua' e que 'os campos gravitacionais do sol e da lua são fortes o bastante para causar a subida ou a descida das marés na Terra.' Se a lua pode afetar as marés, então pode certamente afetar uma pessoa. Mas o que existe de análogo às marés numa pessoa? Somos lembrados de que os seres humanos começam a vida num mar amniótico e de que o corpo humano é 70% água! Se as ostras abrem e fecham as conchas de acordo com as marés, as quais fluem de acordo com as forças eletromagnéticas e gravitacionais do sol e da lua, e se os seres humanos estão cheios de água, não é então óbvio que devam ser influenciados pela lua também? Pode ser óbvio, mas os indícios vindos dos
estudos da lua não confirmam isso.
Os astrólogos dão ênfase à importância das posições do sol, da lua, dos planetas, etc. no instante do nascimento. Mas por que as condições iniciais seriam mais importantes para a personalidade e as características de uma pessoa que todas as condições subseqüentes? Por que seria escolhido como o momento crucial o nascimento, e não a concepção? Por que outras condições iniciais como a saúde da mãe, as condições do local do parto, fórceps, luzes fortes, sala escura, banco traseiro de um automóvel, etc., não seriam mais importantes do que se Marte estáascendendo, descendendo, culminando ou fulminando? Por que o planeta Terra, muito mais próximo de nós no nascimento, não seria considerado uma influência importante no que somos e no que nos tornamos?
Além do Sol e da Lua, e de algum cometa ou asteróide passando ocasionalmente, a maioria dos objetos planetários está demasiado distante de nós. Qualquer influência que pudessem ter sobre o nosso planeta seria encoberta pelas do Sol e da Lua. É muito mais provável que a Terra, e as pessoas e coisas com as quais se tem contato direto, sejam fatores de influência mais importantes nas nossas vidas que distantes corpos celestes. Além disso, se for verdade que podemos determinar efeitos específicos a partir de condições específicas do local do nascimento, então podemos controlar essas condições de forma a trazer resultados benéficos. Por outro lado, mesmo se for verdade que a posição das estrelas e planetas seja mais importante para a vida da pessoa do que um nascimento difícil e passado sob condições horrendas, não há nada que possamos fazer em relação à posição das estrelas, e há um limite no controle que podemos ter sobre o momento do nascimento de uma pessoa. (Ainda bem que não vou ser um astrólogo na era dos bebês de proveta. Como eu iria saber quando o meu cliente 'nasceu'? O processo do nascimento não é instantâneo. Não existe um momento único no qual a pessoa nasce. O fato de que algum funcionário escreva em algum lugar um horário do nascimento é irrelevante. Será que escolhem o momento em que a bolsa se rompe? O momento em que ocorre a primeira dilatação? Quando o primeiro fio de cabelo ou unha do pé aparece? Quando a última unha do péou fio de cabelo ultrapassa o último milímetro da vagina ou da superfície da barriga? Quando se corta o cordão umbilical? Quando se faz a primeira respiração? Ou o momento em que o médico ou a enfermeira olham para um relógio de parede ou de pulso [sem dúvida magicamente livre da possibilidade de imprecisão] para anotar o momento do nascimento?) Ninguém diria que, para que se compreendesse o efeito da lua sobre as marés ou sobre as batatas, fosse preciso entender as condições iniciais da singularidade que precedeu o Big Bang, ou a posição das estrelas no momento em que as batatas foram colhidas. Para que se saiba a respeito da maré baixa de amanhã, não é preciso saber onde estava a lua quando o primeiro oceano ou rio se formou, ou se os oceanos vieram primeiro e a lua depois, ou vice-versa. Condições iniciais são menos importantes que as presentes para que se compreendam efeitos atuais sobre rios e plantas. Se isso vale para marés e plantas, por que não valeria para as pessoas?

Correlação não é causalidade
Esse fascínio pelas correlações também é encontrado no raciocínio dos que tentam transformar todo sítio megalítico antigo em algum tipo de observatório astronômico. Os defensores da astrologia deveriam observar o que Aubrey Burl escreveu a respeito desse tipo de raciocínio.
... são grandes as probabilidades de que ocorra fortuitamente uma boa linha de visão celeste em quase qualquer círculo. Examine-se um sítio como Grey Croft, em Cumberland,... 27,1 x 24,4 m de diâmetro, com doze pedras e uma extra, parece haver tantas linhas e tantos alvos possíveis que seria improvável não descobrir nada (Burl, 50).
Além disso, embora seja verdade que as chances de se passar 20 vezes seguidas num jogo de dados sejam inconcebivelmente baixas, isso já aconteceu. Havendo jogos suficientes, o inconcebível se torna freqüente. Em resumo, o que parece desafiar as "leis" da estatística pode não estar realmente o fazendo, quando se examina com mais cuidado.
Para concluir, há aqueles que defendem a astrologia argumentando com o quanto os horóscopos profissionais acertam. Um colega, professor de história da Universidade da Califórnia em Davis, com título de Ph.D, pratica a astrologia. Naturalmente, possui tecnologia e tem um programa de computador para ajudá-lo a fazer as leituras. Conhece todos os argumentos contra a astrologia e até admite que logicamente ela não deveria funcionar. Mas funciona, acredita ele. Esse conceito de 'funciona' é curioso. O que será que significa?
Basicamente, dizer que a astrologia funciona quer dizer que há muitos consumidores satisfeitos. Não significa que seja precisa na predição do comportamento humano ou de eventos num grau significativamente maior que o da pura sorte. O principal apoio a esse argumento aparece na forma de relatos e
testemunhos. Hámuitos clientes satisfeitos que acreditam que os horóscopos os descrevem com precisão, e que os astrólogos lhes deram bons conselhos. Esse tipo de indício não comprova a astrologia tão bem quanto demonstra os efeitos da leitura a frio, o efeito Forer, e a predisposição para a confirmação. Bons astrólogos dão bons conselhos, mas isso não valida a astrologia. Vários estudos mostraram que as pessoas usam o pensamento seletivo para fazer com que qualquer carta astrológicaque apresentarem a elas se encaixe em suas idéias preconcebidas sobre si mesmas. Muitas das afirmações que são feitas a respeito de signos e personalidades são vagas, e se encaixariam em muitas pessoas de diferentes signos. Atémesmo astrólogos profissionais, a maioria dos quais despreza a Astrologia de Signos Solares, não é capaz de escolher uma leitura de horóscopo correta num índice de acertos maior que o esperado pelo acaso. Mesmo assim, a astrologia continua mantendo a popularidade, apesar de não haver um mínimo de comprovação científica a seu favor. Mesmo a primeira dama dos Estados Unidos, Nancy Reagan, e seu marido Ronald, quando era o líder do mundo livre, consultaram um astrólogo, o que me leva a concluir que os astrólogos têm mais influência que as estrelas.
Será possível que eu seja quem sou devido à posição dos planetas, estrelas, luas, cometas, asteróides, quasares, buracos negros, etc., no momento do meu nascimento? Sim, é possível. Seráque eu tenho alguma razão para achar que isso é mais provável que o oposto, ou seja, de que essas questões sejam insignificantes e irrelevantes para o meu 'destino'? Não. Não consigo encontrar sequer uma única boa razão para acreditar em nada disso. Mas eu sou taurino, e todos sabemos o quão teimoso eu devo ser.


Espiritismo
A crença de que a personalidade humana sobrevive à morte e pode comunicar com os vivos através de um médium sensitivo. O movimento espiritista começou em 1848 no estado de Nova Iorque com as irmãs Fox que afirmavam que os espíritos comunicavam com elas batendo em mesas. Quando as irmãs admitiram a fraude trinta anos mais tarde, havia milhares de médiuns fazendo sessões em que os espíritos entretinham as pessoas fazendo sons, materializando objetos, fazendo luzes brilhar, levitando pessoas e objetos, e outras mágicas. Os médiuns demonstraram toda a panóplia de poderes psíquicos desde clarividência e clariaudiência, a telecinética e telepatia. Acusações repetidas de fraude pouco fizeram para parar o movimento espiritista até aos anos vinte quando mágicos como Houdini expuseram as técnicas e métodos de engano usados pelos médiuns para enganar o mais esperto e santo dos homens.
Qualquer psicólogo iniciante consegue perceber porque o espiritismo foi tão popular. Era a "prova científica" de vida depois da morte! E não envolvia nenhuma das superstições da religião!


Telecinética e psicocinética
Telecinética é o movimento de objetos por meios cientificamente inexplicáveis, como pelo exercício de um poder oculto. Psicocinética é a produção de movimento em objetos físicos pelo exercício de poder mental ou psíquico. Uri Geller afirma dobrar colheres e parar relógios usando o pensamento. Outros afirmam fazer rolar lápis sobre uma mesa como um poder da mente. A variedade de truques de ilusionismo usados é infinita.

PES (Percepção Extra-Sensorial)
A Percepção Extra-Sensorial é aquela que ocorre independentemente da visão, da audição, ou de outros processos sensoriais. Diz-se que as pessoas que têm esse tipo de percepção são paranormais. Ela é comumente chamada de PES, ou ESP, termo cunhado por J.B. Rhine, que iniciou a investigação do fenômeno na Universidade de Duke, em 1927. A PES é relacionada com a telepatia, a clarividência, a precognição, e mais recentemente com a visão remota e a clariaudição. A existência da PES, e de outros poderes paranormais como a telecinese, é questionável, embora a pesquisa experimental sistemática desses fenômenos, conhecidos coletivamente como psi, venha sendo feita por mais de um século na parapsicologia.

O caso a seguir é um exemplo típico dos citados como prova da PES. É incomum apenas por envolver a crença num cão paranormal, em lugar de um ser humano. O animal em questão é um cão da raça terrier que se tornou famoso por ter PES, ao exibir sua capacidade de saber em que momento a dona, Pam Smart, decidia voltar para casa, quando estava fora fazendo compras ou outros afazeres. O nome do cão é Jaytee. Apareceram em vários programas de televisão na Austrália, Estados Unidos e Inglaterra, onde mora com Pam e os pais dela, os primeiros a perceber os poderes paranormais do animal. Observaram que ele corria para a janela que ficava de frente para a rua, precisamente no momento em que Pam, a quilômetros de distância, decidia voltar para casa (não está esclarecido como os pais sabiam qual era o momento exato em que ela decidia voltar para casa). O parapsicólogo Rupert Sheldrake investigou o assunto e declarou o cão um verdadeiro paranormal. Dois cientistas, o Dr. Richard Wiseman e Matthew Smith, da Universidade de Hertfordshire, testaram o animal sob condições controladas. Sincronizaram seus relógios e prepararam câmeras de vídeo focalizando o cão e sua dona. Infelizmente, várias tentativas experimentais depois, concluíram que o cão não fazia o que se alegava. Ele realmente se dirigia para a janela, e o fazia com bastante freqüência, mas em apenas uma das vezes o fez no momento exato em que a dona se preparava para ir para casa. Este caso, no entanto, foi desconsiderado porque ficou claro que o cão estava indo para a janela apósouvir um carro parar do lado de fora da casa. Foram conduzidos quatro experimentos, e os resultados foram publicados no British Journal of Psychology (89:453, 1998).
Grande parte da crença na PES é baseada em eventos aparentemente incomuns que parecem inexplicáveis. No entanto, não deveríamos assumir que todos os eventos do universo pudessem ser explicados. Nem deveríamos assumir que tudo aquilo que é inexplicável exija uma explicação paranormal (ou sobrenatural). Talvez um evento não possa ser explicado porque não há nada a ser explicado. A maior parte das alegações de casos de PES não é testada, mas alguns parapsicólogos têm tentado verificar a existência da PES sob condições controladas. Alguns, como
Charles Tart e Raymond Moody, alegam ter tido sucesso. Outros, como Susan J. Blackmore, alegam que anos de tentativas de encontrar provas experimentais da PES não conseguiram trazer nenhuma prova de poderes paranormais incontroversos e reprodutíveis. Os defensores do Psi alegam que as experiências Ganzfeld, os experimentos da CIA com a visão remota e as tentativas de influenciar geradores de números aleatórios na Pesquisa de Anomalias da Escola de Engenharia de Princeton apresentaram provas da PES. Psicólogos que investigaram meticulosamente os estudos da parapsicologia, como Ray Hyman e Susan Blackmore, concluíram que, onde se encontravam resultados positivos, os trabalhos estavam repletos de fraudes, erros, incompetência e malabarismos estatísticos.


Fonte: brazil.skepdic.com em 12/04/2005